segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Eu tive sarampo!

Nasci em 1970, terceira filha em três anos. Tempos de vacas magérrimas, nos quais o dinheiro do alimento do dia era ganho pelo meu pai das quatro às seis da manha fazendo lotação.

Meus pais tinham pouca informação, e não fomos vacinadas no tempo certo. Lembro que quando fomos matriculadas no pré (minha irmã mais velha já com seis anos), precisamos tomar todas as vacinas, caso contrário não seríamos aceitas.

Vacine seus filhos! É sempre melhor tê-los sorrindo assim, como
eu nessa foto, em uma das nossas raras escapadas para Santos
Mas o que vou contar aqui aconteceu antes disso, quando tinha uns dois anos de idade. Tive sarampo. E tenho uma única lembrança bem viva disso. Eu, um bebê mais crescido, deitada na cama, não lembro se tinha dor, febre ou coceira, mas estava doente, portanto, vinha gente me visitar. E veio meu padrinho. Ele se inclinou sobre a cama para me olhar bem de frente. É isso que me lembro: a cara dele que expressava um sentimento de “coitadinha dela”, como se eu estivesse nas últimas. Que lembrança!

Fui perguntar pra minha mãe o que ela lembra dessa ocasião, se eu realmente fiquei muito ruim, se o caso era sério. Ela disse que não, que já tinha tomado todos os cuidados necessários, e que eu podia ficar em casa. É claro que o nível de cuidado mudou muito de lá pra cá, e também vírus foi ficando mais forte e mais perigoso ao longo do tempo, pois hoje em dia um caso de sarampo normalmente vai parar na internação num hospital.

Com essa epidemia atual, fiquei receosa e, por não ter tanta certeza assim se a doença tinha me imunizado adequadamente, fiz o teste. Realmente eu tive sarampo e sou naturalmente imunizada. 

O Brasil tem inúmeros problemas de ordem econômica e social, mas uma coisa nenhum país do mundo pode falar: o SUS oferece gratuitamente a vacinação completa para todas as crianças, ricos ou pobres, não havendo motivo para não proteger os filhos recém-nascidos. 

Você aí que tem filhos, a carteira de vacinação está em dia?

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sexta-feira, 14 de junho de 2019

A saga da cidadania: os laços de sangue

5 de setembro de 1889: começa a história de um
Gallet que n
ão fazia ideia do quão longe iria
 
Minha mãe teve bem pouco contato com o avô dela, o italiano que chegou ao Brasil em 1896. Nem o idioma foi preservado, pois meu avô João Galetti, pai da minha mãe, não falava italiano. Pudera, seu pai, meu bisavô Eugenio Gallet, chegou no Brasil com menos de sete anos, foi alfabetizado em português e provavelmente foi perdendo seu italiano, nem tendo a ideia de passar o idioma para seus filhos. Certamente havia coisas mais importantes para cuidar, como trabalhar duro para garantir a sobrevivência.

Pois bem, falando ou não italiano, o direito de sangue estava lá, porém era preciso comprovar os laços sanguíneos por meio de documentos oficiais. Desde que descobri que tinha direito, passei a frequentar fóruns sobre o tema, onde vi que para muitos a parte mais difícil era conseguir descobrir onde exatamente o antepassado havia nascido, pois os registros de chegada no Brasil diziam de maneira genérica “italiano” ou apenas a região da Itália de onde tinham vindo. Era preciso pesquisar em que região da Itália o sobrenome era mais frequente, e então escrever para as várias cidades daquela região, na esperança de que em uma delas a certidão de nascimento fosse encontrada.

Eu tive a grande sorte de ter um tio-avô vivo e muito lúcido, o Tio Luiz Galeti, que me passou com exatidão todas as informações sobre o seu pai, meu bisavô. Onde nasceu, com dia, mês e ano, quando e onde casou, e onde faleceu. As certidões brasileiras foram obtidas com certa facilidade, telefonando para os cartórios das cidades informadas pelo Tio Luiz e solicitando os documentos. 

Claro que tudo teve seu preço (as certidões, o correio com envio seguro), mas foi um investimento devidamente calculado. Já para solicitar a certidão de nascimento do meu bisavô na Paróquia de Aquileia eu contei com a ajuda de uma italiana para a qual eu trabalhava, que telefonou diretamente lá. Com os dados precisos fornecidos pelo Tio Luiz, a busca foi bem facilitada e em dez dias a certidão de nascimento/batismo chegou pelo correio.

Eu já tinha todas as certidões na mão. Qual seria o próximo passo? Traduzir, legalizar e dar entrada no consulado italiano em Munique. Parecia tudo muito fácil e rápido, em relação a tudo que eu havia lido em diversos fóruns sobre cidadania italiana. 

Pois é, mas como nada na minha vida havia sido fácil até então, a cidadania seguiu o mesmo padrão: a cidade de Aquileia, onde meu bisavô havia nascido, não pertencia à Itália na época do seu nascimento. Havia tudo voltado à estaca zero?

Comecei a estudar a história das guerras napoleônicas e suas consequências na Europa do século XIX. E descobri que sim, ainda havia um caminho para o reconhecimento da minha cidadania. Só não seria tão rápido quando inicialmente pareceu que seria. 

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